Da morte.

Houve um esforço de sentir para o qual ele não estava de forma alguma preparado. Aquela palpitação regular foi-lhe surpreendente.
Durante a viagem, foi sendo assaltado por memórias aleatórias, o que o enfureceu. Não era em nada disso que ele queria pensar, não era assim que ele sentia que devia ser! Imagens dos intermináveis comboios nocturnos que o transportavam para longe, quando vivia no outro lado; lembranças azedas de jogos de futebol adolescentes; a sua mãe depositando na cadeira a roupa que ele haveria de levar para a escola na manhã seguinte… Não!
Tentou afastar tais revisitações concentrando-se em imagens mórbidas com a intenção de se preparar – mas não conseguiu mais do que uma listagem de fotogramas recolhidos directamente da sua cultura audiovisual, organizados por grau de horribilidade. Estremeceu de desolação: a sua imaginação era cadavérica, quando comparada com essa coisa da realidade.
No lugar da igreja o ar estava fresco. Enquanto caminhava, concentrou-se com prazer no som agradavelmente ritmado que os seus pés causavam no tapete de folhas secas que cobria o chão. Sentiu os olhos postos em si quando cruzou o adro – olhos cabisbaixos e perscrutadores, olhos que o faziam sentir-se em falta.
Decidiu então que devia carregar com peso o seu próprio olhar – e pesadamente se arrastou pela nave central em direcção ao transepto onde, no meio de cachos a florir, repousava uma urna aberta. Todas as imagens de santos nos altares laterais, todos os apóstolos nos frescos do tecto, todos os Cristos das etapas litúrgicas – todos eles estavam virados para si. Ouviam-se as mil vozes idosas de terços rezados em cascatas tribais. Este ambiente sugeria-lhe uma exaltação da derrota, um pedido de perdão colectivo pela inferioridade e falibilidade humana – e isso esmagava-o.
Estacou. Susteve a respiração até ouvir o silêncio do coração a bater e deu o passo que faltava até à total proximidade com o corpo. Saltou à vista naturalmente um tufo de cabelos brancos que o véu não velara.
A palpitação desregulou-se.

2 Comments:
Bem,o teu escrito é daqueles que nem o Dr.F.Miranda consiguiria desmontar.....o momemento é de "Acthung Baby',interpretado,claro está pela banda,que um dia tinha como carapaça a transportar,de A MELHOR e mais criativa banda alguma vez existente neste planeta,ou seja OS U2..........Abraço de aquele que te...
gosto disto.
se sei acerca do imaginário cadavérico para fugir ao real...
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