Sunday, November 12, 2006

hapiness is a warm gun

Edna toma mais um comprimido. É o quarto.
“Hoje é quarta-feira. Foi um bom dia, sorri. Quando sorrio, significa que consigo enganar o meu corpo, a minha doença. É um velho truque que tenho. Hoje sorri. Senti-me sortuda e sorri. O Robert ofereceu-me um cartão do dia da Mãe, todo feito por ele! Acho que a professora o ajudou, mas não tive coragem de perguntar. Desenhou caras sorridentes por todos os lados do cartão, como se todo o mundo gritasse em coro: Feliz dia da Mãe! Feliz dia da Mãe!... Eu não tenho medo das pessoas.”
Edna está estendida no chão. Ainda assim, esta rapariga não perdeu grande coisa. “I need a fix ‘cause I’m going down, down to the place that I left uptown, I need a fix’cause I’m going down.”
Eis Leonidas: “Acorda, mulher, acorda. Veste-te.” Está sentado no chão a olhar para ela.
“Tens um funeral para ir. Veste-te.” Ela, atordoada, serve-se abusivamente da garrafa enigmática que Leonidas empunha. Mais um comprimido.
-“O que tomas, mulher?”
-“Chamam-se Borisvianol, e são azuis como o arrepio…”
-“Sabes que dia é hoje?”
-“Hoje é quarta-feira!”
-“Exactamente!”, canta uma vistosa drag-queen que de rompante invade este quarto.
-“E quem és tu, ser abjecto? Estará S. Pedro de diarreia?” – Leonidas está furioso e desembaínha a espada.
-“Bem, costumam chamar-me Ratzinger”, e ri-se num tom forçado e o mais masculino possível. Depois endireita-se e adopta uma face cabisbaixa e pateticamente triste, como um palhaço pobre – “Bom, na verdade chamam-me assim porque não sou tão bela como as outras fufas lá do clube, e como vou cantando enquanto faço mamadas (assim não me enojam tanto…), dizem que sou uma ratazana cantora…” Nisto, faz um olhar severo, cerra os punhos e bate um contra o outro e proclama: “Mas para vocês, sou a Madre Superiora.” (Neste momento seria possível imaginar um chicote a estalar, mas não se verificou).
Esta revelação faz incendiar a tensão que aquele particular espaço-tempo ainda poderia conter.
-“A minha espada continuará desembainhada, Madre Superiora!”, lança Leonidas exaltadamente. “Os problemas de Cristo são lastro neste lar! Vai-te! Vai-te, ou provarás com o teu sangue porque é que o tempero da minha espada é repetidamente elogiado pelo Conde de Michelin!”
A Madre Superiora não recua; na verdade, é ainda capaz de empunhar a besta que trazia escondida debaixo do hábito de um antigo monge. Enquanto ela calibra a mira, Edna grita “Não! Não! Não!!!” correndo às voltas como um pirata com o síndrome de Downing. Quando decide parar e levantar a cabeça, repara assustada que, embora ainda de besta em posição de ataque, o corpo da Madre Superiora já não ostenta cabeça. Esta está na mão de Leonidas, que orgulhoso, proclama:
-“Mais uma vitória contra os evil-makers! Sou eu o justo defensor do vício da justiça! Do justamente viciado! Do genericamente vivido!”
-“Temos um funeral para ir.” Edna está vestida de preto mas com a maquilhagem borratada a cobrir-lhe as maçãs do rosto.
Mais um comprimido. É o quinto ou sexto.

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